Friday, March 24, 2006

CHURRASQUINHO DE GATO

São Paulo foi definitivamente invadida pelos churrasquinhos de carrocinha e de porta de bar. Esse fenômeno culinário existiu na minha infância, sumiu na idade adulta e ressurgiu novamente agora na minha maturidade. Quando eu era moço, para comer churrasco tínhamos que ir a um restaurante ou fazê-lo em casa. Agora, que profusão. Pululam os carrinhos e as churrasqueiras nas calçadas. Churrasquinhos de todas as espécies. Restos de carnes prensadas nos frigoríficos, salsichas e lingüiças cujo conteúdo é um insolúvel mistério, adicionando provas irrefutáveis ao postulado de Lavoisier. Em alguns casos, até espetinhos de simples carne de vaca. E eu gosto disso tudo. Gosto de ver nossa terra respondendo, à sua própria maneira, ao gosto do povo.

Nasci em tempos mais difíceis, durante a segunda guerra mundial. Vi coisas como fila do pão, carros movidos a gasogênio, Coca Cola distribuída gratuitamente, para nós crianças aprendermos a gostar. Vi até excursões de escolas de freiras levando os alunos para visitar fábricas de cigarros. Eu visitei. E vários alunos, inclusive eu que fui coroinha, levaram maços de cigarros para casa como souvenir. Havia a preocupação dos funcionários em cortar uma pequena parte do papel do maço para simular que o selo de lei fora removido. Muito instrutivo. Foi assim que encontrei o primeiro substituto dos nossos ingênuos cigarrinhos de talos secos de chuchu com os quais, escondidos, brincávamos de fumar. Onde encontrar talos de chuchu hoje? Havia, inclusive, cigarrinhos de chocolate nas vitrines de doces. Definitivamente eram outros tempos. E eu os vivi.

Minha poderosa avó materna, uma italiana dura, analfabeta e sábia, às vezes me pegava pela mão e me levava a conhecer o mercado e a cidade. Sustentou meu avô doente num leprosário durante 15 anos, comprou duas casas e criou duas filhas. Se arranjou sozinha sem nunca casar novamente. Não é pouca coisa para quem vivia de pegar um carrinho de mão nas margens do rio Pinheiros e caminhar até o mercado grande no centro de São Paulo, para enchê-lo de frutas e verduras e depois voltar vendendo de porta em porta. No domingo, dia de jogo no Estádio do Pacaembu, comprava um saco de amendoim, torrava e ia vendê-lo em pacotinhos aos freqüentadores.

Era uma mulher rude, rígida e determinada. Trabalhava dia e noite. Mas me ensinou refinamentos preciosos como dessalgar um arenque defumado banhando-o em vinagre, fazer pão caseiro e macarrão italiano. Para ela eu era o rei e assim fui tratado. Quando tinha alguma coisa gostosa só para um, era para mim. Mesmo na nossa pobreza conseguiu me fazer estudar em um colégio religioso pago, me consultava para ouvir minha opinião sobre as coisas e me tratava mais como homem que como criança. Nem sempre eu soube disso.

De sua boca ouvi durante toda vida palavras como honra, moral, dignidade, honestidade e generosidade. Faz tempo que essas palavras não aparecem mais nos jornais ou no noticiário.
Pode procurar. Não tem mais. Nem nas conversas. Parece não haver mais razão para usá-las. Receio que junto com as palavras esteja desaparecendo o próprio conceito.

Naquele tempo, entre as ruas cheias de restos de verduras e frutas, às vezes ela me levava a algum restaurante pobre e simples ao redor do mercado. Eram os chamados frege moscas.
Nesses pobres restaurantes não havia cardápio. Cardápio para que? A maioria dos clientes, pobres carregadores, como ela mesma, não sabia ler. O garçom, de colete ensebado e lustroso, com um pano de pratos jogado sobre o ombro, revirando os olhos pelo ambiente, recitava meia dúzia de pratos enquanto mascava um palito e coçava a virilha. Ouvíamos a ladainha, ela me ouvia, escolhia alguma coisa e comíamos juntos.
Eu olhava os quadros antigos nas paredes, os retratos ancestrais e silenciosos a espiarem os clientes, as tiras de papel crepom cruzando o teto cheio de moscas e se encontrando na solitária lâmpada central. A pequena prateleira com bebidas empoeiradas, os furos na toalha, as manchas de comidas passadas, o copo opaco de gordura. E ficava encantado com tudo aquilo.

A fumaça do fogão à lenha se esgueirava para o acanhado e abafado salão, filtrando o sol de tempos menos poluídos, criando uma atmosfera especial. Homens nus da cintura para cima se agitavam suarentos no calor sufocante da pequena cozinha. Diziam-se limpos pelo fato de banharem-se o dia todo no próprio suor. Um pano de cor indefinida, endurecido pelo tempo e impermeável pela falta de limpeza, enxugava o suor e limpava a borda dos pratos. Na rua, ao lado da porta, o dono do frege moscas colocava uma pequena churrasqueira a carvão onde grelhava bifes de fígado e cebolas, atraindo, pelo cheiro, os transeuntes. Lembro que tudo isso, incompreensivelmente, era bom. Uma noite, quando Dona Vicentina, já muito velha e com dificuldade para caminhar, quis dirigir-se ao seu quarto, meu pai perguntou se ela queria que ele a carregasse nos braços. A dura italiana respondeu que quando alguém precisasse carregá-la preferiria morrer. Lentamente subiu a escada sem amparo, chegou ao topo e morreu. Simples e direta como sempre fora. Por isso, olhando hoje a profusão de churrasquinhos espalhados pela cidade, lembro de minha avó e dos velhos tempos, quando gatos de rua corriam grande perigo de virar churrasquinho em algum mal afamado frege moscas como os que conheci.

Me encanta a facilidade com que hoje compro um bom alcatra de Nelore e faço meu churrasquinho. Pico a carne em cubos pequenos e coloco sal em quantidade um pouco maior que o usual. Depois um pouco de cebola ralada, quase que só o caldo. Um dente de alho amassado, umas gotas de limão ou vinagre, um pouco de molho de pimenta, uma porçãozinha de páprica e pimenta do reino moída na hora. Misturo tudo e ao final coloco um pouco de óleo para untar a carne. Está pronto. Os espetinhos de madeira ficam de molho na água por meia hora antes de espetar a carne para não queimarem facilmente na churrasqueira. É assado em fogo esperto e fica uma delícia. Quem gosta, bate o espetinho assado numa boa farinha crua. Eu gosto com bastante pimenta. Em homenagem aos tempos que se foram e aos quatro gatos que moram em casa, chamo de “Churrasquinho de Gato”.

Outro dia, chegando do supermercado com um enorme gato Branco e quatro sacos de carvão no carrinho, fui abordado por um desconhecido que, maliciosamente, perguntou que combinação era aquela. Fazendo piada, disse que o carvão era para assar o gato e fazer churrasquinho. O cavalheiro então informou que já havia feito muito churrasquinho de gato no passado e que entendia do assunto. Com ar profissional avaliou o bichano, olhou os sacos de carvão e deu seu veredicto: Um saco apenas basta!
Pobres gatos...
E eu pensava que os velhos tempos haviam passado...

2 Comments:

Blogger luadesavana said...

gosto do que escreves, a tua vivência, o amadurecimento, a realidade nos textos. Quando vai sair o livro? Beijo. Nina

7:27 PM  
Anonymous Anonymous said...

This comment has been removed by a blog administrator.

2:02 AM  

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