Thursday, March 30, 2006

CURRICULUM

Advertência Inicial
Como reduzir um homem a dados em um folha de papel?
Síntese absurda, inalcançável. Nunca conhecemos verdadeiramente outro ser. Nunca conhecemos verdadeiramente nem a nós mesmos. Amigos e inimigos se enganam a nosso respeito e dizem coisas boas e ruins que nunca passaram pela nossa cabeça. Apenas pelas deles. Dados e informações são interpretados de acordo com cada observador. Por isso, no veredicto de cada julgador de meu curriculum haverá possivelmente mais de si próprio que de mim mesmo. Talvez que do julgamento de cada pessoa possa emergir um ser inexistente que nada tenha a ver comigo ou com o próprio julgador. Mas que fazer? Mesmo sabendo disso devo apresentar meu curriculum. Não para que me conheçam, mas para que possam me julgar, mesmo sem me conhecer. Como Pilatos, lavo as mãos de qualquer injustiça que possam cometer os que me julgarem. Talvez que um julgamento injusto seja até melhor, pois lembro de um ditado de antiga sabedoria: “Nunca peça justiça a Deus, porque vai que Ele dá!”.

O mais relevante fato de minha carreira
Discordo de Descartes que, questionando a própria existência, concluiu: “Penso, logo existo”. Existiu muito antes de pensar na existência. Existiu desde o momento da concepção, quando o DNA se recombinava para criar novas células e nova vida. Se não percebia isso àquela altura é outro assunto. Por isso, considero que o mais importante fato que me aconteceu até hoje foi que, numa noite de carnaval, nasci. De uma linda mãe de apenas 17 anos. Todo o resto ocorreu depois, fruto da incrível perplexidade de estar vivo e encontrar pela frente um mundo formado por gerações e gerações antes de mim. Não precisei inventar o telefone, nem a televisão, a anestesia, a energia elétrica, a computação, a fotografia, a escrita, o avião, o direito, o dinheiro ou a organização social. Tudo já estava lá, feito e pronto, funcionando, esperando por mim. Tanto, que tive até certidão de nascimento. Cheguei como o mais novo usuário de um complexo mundo sem manual de instruções. E foi nesse grande e complexo mundo, rico de idéias, invenções, lutas, conflitos, conquistas, lágrimas e histórias que vivi, cresci e me transformei em adulto, se é que isso realmente acontece para alguém algum dia.

Formação
Diz a sabedoria que, “Quem tropeça e não cai, adianta o passo”. Em outras palavras, até os tropeços são formadores do que hoje somos e onde nos encontramos. Eleger os fatos que influíram na minha formação é eleger toda minha vida. Não sei por que minha experiência em eletrônica seria mais importante que minha experiência administrativa, ou mais importante que minhas desilusões, amores, desejos, anseios e idealismos. Fundei uma empresa e consegui angariar 26 milhões de dólares em contratos de telecomunicação, depois fali. Apanhei um cachorro na rua porque vi um idiota maltratando o animal e hoje o cachorro mora comigo e somos grandes amigos. Qual fato é mais importante e para que? Talvez que as coisas simples digam mais de nós que os grandes acontecimentos porque, quando queremos saber a direção do vento lançamos ao ar uma pluma , não uma pedra.

Dizer o que realmente importa é difícil. Por isso só posso dizer. Dizer que já amei, que fui feliz, que lutei, que já quis consertar o mundo várias vezes, que me arrependi. Fui orgulhoso e severo. Um homem já ajoelhou aos meus pés e pediu perdão. E eu perdoei. Conheci uma jovem psicóloga que me aplicava testes de QI. Surpresa com os resultados me levou a um teste na própria universidade. Me senti um espécime observado sob uma lupa e nunca mais voltei. Já apanhei um garoto de rua e o levei para morar em casa e consegui dar rumo à sua vida. Já consertei motocicletas, automóveis, equipamentos eletrônicos, projetores, fui relojoeiro como meu pai. Já restaurei antiguidades. Já projetei equipamentos eletrônicos e fiz desenvolvimentos. Estudei física, eletrônica, filosofia. Li quadrinhos e histórias juvenis. Já andei meio mundo visitando fábricas e centros de pesquisa e desenvolvimento em vários países. Já escrevi para revistas e percorri instituições financeiras e empresas nos EUA e na Europa buscando investidores para meus projetos no Brasil. Fotografei, filmei, produzi vídeos. Aprimorei-me em culinária honrando a tradição deixada por minha avó e minha mãe. Juntei mais de 300 livros de culinária em minha biblioteca, alguns do século XIX. Fui convidado a ministrar curso de Pós Graduação em Tecnologias Avançadas para engenheiros mesmo sem nunca haver tido formação acadêmica, tanto estudei a coisa. Minha biblioteca de eletrônica e telecomunicações doei inteiramente. Fiquei com a culinária que evoca minha família e ainda faz a alegria dos poucos amigos.

Sempre tive dificuldade em aceitar a escola não obstante goste de pesquisar, experimentar, estudar e aprender. Por isso me dei melhor ensinando e falando para platéias. Já fui eleito profissional do ano em minha área, já fui entrevistado na televisão, já fiz conferências, conversei com políticos e empresários. Já passei vergonha, já fui impróprio, já errei. Já fui importante. Não sei o que importa hoje. Talvez tudo importe. Ou nada importe. Como dizer?

Já senti, como Adriano, o imperador Romano, que é muito duro para um homem estar certo antes da hora. Como disse Millor Fernandes, "na terra de cego, quem tem um olho, deve furar". Senti que devagar se vai ao longe, mas quando se chega lá já é tarde demais. Já estive à frente, já fiquei para trás, já tive idéias, fui brilhante umas poucas vezes, tolo muitas outras. Ao ver certas pessoas com as quais topei ao longo da vida, como Diógenes, pensei em morar em uma barrica e procurar um homem justo com uma lanterna. Depois compreendi que não existe lanterna com tanta luz assim. Já amei muitas mulheres, busquei ser amado, busquei a admiração, a amizade sincera, desiludi pessoas, senti paixão, ódio e compaixão. Saber que a vingança nos dá um momento de prazer mas que só o perdão torna nossa vida digna de prazer, de nada adiantou. Já naveguei o oceano em meu próprio veleiro, já enfrentei tempestades, aprendi navegação, já decolei um avião, saltei de Para-Glide e quebrei o cóccix em uma queda. Andei de moto quase toda minha vida e fui atropelado por um carro que bateu atrás da minha Harley Davidson me espalhando no asfalto em um dia de natal. Já quebrei a perna em um simples escorregar. Já fiz trilhas com minha Land Rover e assinei documentos com caneta de ouro. Ainda tenho uma carteira Mont Blanc que qualquer dia usarei para fazer graça. As grifes perderam o encanto para mim. Prefiro a solidez, qualidade e elegância. Prefiro a durabilidade das coisas que transcenderão minha existência. Talvez seja a maneira de entrar em contato com a perpetuidade que não terei.

Olho alguns objetos que minha família deixou. Todos já se foram e as coisas lá estão. As ferramentas de meu pai, os utensílios de cozinha da minha mãe e minha avó, os velhos livros, as encadernações feitas por minha tia, as velhas fotos, os relógios antigos que apontaram tempos passados. Até um rádio da época da guerra lá está, diferente de mim e indiferente a mim, funcionando perfeitamente. Moro sozinho e fico pensando o que minha filha fará com meus instrumentos eletrônicos, meus projetores de cinema, meus filmes 16mm, meu ampliador Leitz, minhas máquinas fotográficas, meus 400 discos de 78 rotações que ouvi na infância junto com meu pai. Acho estranho que as coisas sobrevivam às pessoas. Mas assim é que herdamos um mundo já pronto. Se as coisas desaparecessem com as pessoas seria um eterno recomeço. Uma espécie de inferno onde as pedras são eternamente roladas sem nunca chegar ao topo. Se você encontrar um lugar que lhe promete a vida eterna, não entre. Talvez seja o inferno. Aprendi que a vida é boa, mas que, como dizem os chineses, “Muito de uma coisa boa não é uma coisa boa” e que “Muito ao Leste, muito ao Leste, já é Oeste outra vez”.
Talvez que a vida seja curta para não ser infernal.
Talvez eu esteja chegando ao Oeste outra vez.

wtas@uol.com.br